As cinzas às cinzas

Posted in acasos with tags on August 28, 2011 by teresa

“Quando tornou a acordar, pareceu-lhe que a chuva cessara. Mas não fora isso que o acordara. Fora visitado num sonho por criaturas de um género que nunca vira antes. Não falavam. Imaginou-as agachadas junto do catre, a escapulirem-se mal ele acordara. Virou-se e olhou para o rapaz. Talvez se apercebesse, pela primeira vez, de que era um extraterrestre aos olhos do filho. Um ser vindo de um planeta que já não existia, que contava histórias de veracidade bastante duvidosa. Queria recriar o mundo que perdera para desfrute do rapaz, mas isso implicava necessariamente recriar a perda, e achava que talvez o filho percebesse isto melhor do que ele próprio. Tentou recordar o sonho, mas não foi capaz. Restava apenas a atmosfera. Pensou que talvez as tais criaturas tivessem vindo para o avisar. De quê? De que não podia inflamar no coração da criança aquilo que não passava de cinzas no seu. Mesmo agora, uma parte de si desejava nunca terem encontrado aquele refúgio. Uma parte de si desejava sempre que tudo acabasse.”

[A Estrada, Cormac McCarthy]

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O Mundo do Aviador

Posted in acasos on July 1, 2011 by teresa

I
Cruzaste os inúmeros montes sob céus de tormenta –
– Talvez um pouco desamparado e um tanto inseguro –
Quando, de súbito, o sol do ocidente
Encontra um reflexo no cima da “canopy”

II
Já muito depois de teres esquecido o suor do dia,
Lembrar-te-ás deste fugidio raio de sol no vale,
Apontado por cimos dos montes,
Como que receosos que perdesses o seu encanto maravilhoso.

III
Quando tiveres voado anos suficientes para ter
Cruzado muitos montes e vales e conhecido muita solidão
E suportado muitas incertezas –
– Porque então serás um piloto, e nas paredes da tua memória
Estão suspensos quadros belos que nenhuma outra profissão conheceu
E, por causa deles, tu nunca serás demasiado velho,
E nunca temerás o que está para vir.

IV
Exactamente como a realidade do voo sintetiza tempo e espaço,
Também a experiência de voo sintetiza
O traço da vida em si própria para o aviador.

V
Se nunca te aventuraste em céus ameaçadores,
Nunca te encontraste em vales afagados pelo sol,
Se as palmas das tuas mãos nunca estiveram humedecidas em suor,
O teu coração nunca palpitou.
Se nunca tiveste medo, nunca foste corajoso.

VI
Aprendeste que, se os céus estivessem sempre sem nuvens,
os montes e os vales por baixo seriam estéreis.
Viste desencadearem-se as forças da natureza,
Para além do controlo dos homens,
Mas foste capaz de te capacitar
A co-existir com elas em segurança e paz.
Sentiste que, onde não há desafiar não há atingir.

VII
Portanto penso que ele aprende da vida,
Este que usa as botas de sete léguas,
Este aviador que vai de ponto para ponto com tal naturalidade
Que, mesmo as próprias feições do céu
São dominadas no seu vai-vem.

VIII
E, mesmo se tal não o amolda em humildade
De sentimento e paz de coração
E se ele não se integra em espírito comigo e
Com os cumes dos montes, apontando eternamente
Para algum nobre ideal
Que se aloja nas sombras de uma história grave,
Então, eu não consegui ler com compreensão,
Na longa passagem pela vida, os longos pensamentos de meus camaradas
Daqueles que conquistaram direito
De cidadania no MUNDO DO AVIADOR.

Gill Rob Willson
Tradução de José Krus Abecasis, piloto militar

what? there’s no fade out??

Posted in acasos on June 28, 2011 by teresa

Tom: Where’s the fade out?
Cecilia: What?
Tom: When the kissing gets hot and heavy, just before the lovemaking, there’s a fade out.
Cecilia: Oh, then what?
Tom: Then we’re making love in some private perfect place.
Cecilia: That’s not how it happens here.
Tom: What? There’s no fade out?
Cecilia: No. But when you kissed me, I felt like my heart faded out. And I closed my eyes, and I was in some private place.
Tom: How fascinating. You make love without fading out?

[filmes bons de ver e ler.]

As pessoas que não somos

Posted in acasos on June 19, 2011 by teresa

 

Quantas vezes perguntamos “como estás?” com o mesmo interesse com que fazemos observações sobre o estado do tempo. Não nos interessa a resposta, a pergunta é atirada automaticamente para preencher um espaço vazio. “Já estou melhor, obrigada” é o reconhecimento dessa distância disfarçada de proximidade, dessa indiferença que rege o nosso dia-a-dia.

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Posted in acasos on June 3, 2011 by teresa

Porque a porta esteve sempre aberta. Mas nós nunca arriscámos.

A primeira desilusão

Posted in acasos on June 3, 2011 by teresa

A alice, com quase dois anos e meio, descobriu agora o que é saltar. Saltita, afastando-se do chão uns poucos centímetros, tentando imitar coelhos e cangurus. Um destes dias, estava a ensaiar vários saltinhos de seguida quando declarou: “não consigo”. A mãe, sempre preparada para lhe dar uma palavra de incentivo, disse logo: “Então, não consegues? Claro que consegues!”. E ela, que já começa a entender alguma coisa do mundo, logo constatou, com alguma desilusão na voz: “não consigo voar!”. E ficou assim de olhar fixo no tecto e braço estendido em direcção ao infinito.

keep it simple and stupid

Posted in acasos with tags , on June 1, 2011 by teresa

“(…) vi passar um homem bem trajado, fitando a miúdo os pés. Conhecia-o de vista; era uma vítima de grandes revezes, mas ia risonho, e contemplava os pés, digo mal, os sapatos. Estes eram novos, de verniz, muito bem talhados, e provavelmente cosidos a primor. Ele levantava os olhos para as janelas, para as pessoas, mas tornava-os aos sapatatos, como por uma lei de atracção, anterior e superior à vontade. Ia alegre; via-se-lhe no rosto a expressão da bem-aventurança. Evidentemente era feliz; e, talvez, não tivesse almoçado; talvez mesmo não levasse um vintém no bolso. Mas ia feliz, e contemplava as botas.

A felicidade será um par de botas? Esse homem, tão esbofeteado pela vida, achou finalmente um riso da fortuna. Nada vale nada. Nenhuma preocupação d’este século, nenhum problema social ou moral, nem as alegrias da geração que começa, nem as tristezas da que termina, miséria ou guerra de classes, crises da arte e da política, nada vale, para ele, um par de botas. Ele fita-as, ele respira-as, ele reluz com elas, ele calca com elas o chão de um globo que lhe pertence. Daí o orgulho das atitudes, a rigidez dos passos, e um certo ar tranquilidade olímpica. Sim, a felicidade é um par de botas.”

[Excerto do conto “Último Capítulo”, Histórias Sem Data, Machado de Assis]