Archive for encontros

O patinho feio da estrela

Posted in acasos with tags , on March 1, 2010 by teresa

Parecia louca. Falava com o cisne como se ele fosse uma criança. “Chico! Chico! Anda cá!” Aproximei-me porque a curiosidade falou mais alto. Há loucuras que atraem. “Ele está chateado comigo. Não lhe trouxe bolachas hoje. Eles [o cisne e os patos do lago, e os pombos, e os peixes vermelhos] são uma boa companhia. Têm mais sensibilidade que nós, humanos. Também tenho patos e cisnes em casa. E pombos. Os pombos são o exemplo do amor. Só vivem para o amor. Têm filhos, cuidam deles, têm filhos. Vivem para o amor. As nossas relações às vezes são tão frias. No outro dia percebi o sentido da expressão «arrastar a asa». Filmei e tudo. Vivo num sítio com muita natureza, gosto muito. Estava num jardim, à espera do meu filho, que tinha ido a uma entrevista. O pombo, quando escolhe a parceira, arrasta a asa no chão ao pé dela. Penso que foi a asa direita. Para mostrar que está disponível para ela. Eles são fiéis, os pombos. Também tenho muitos. Sou do Norte, sabe? Quando vim para cá, chorei. Na primeira noite chorei. Você não é de cá. Não tem sotaque de lisboeta. Está aqui, neste jardim, com essa calma. Os lisboestas são frios. Vivem para o futebol e para as telenovelas. Os lisboetas vivem, mas não vivem. Não comunicam. Nem para si vivem porque não fazem o que gostam. Não páram. Só trabalham e, se for preciso, não trabalham bem. Você não é de cá. Você faz o que gosta. Cuidado, para não lhe roubarem isso! Aproveite. Até uma próxima!”. Até uma próxima.

[Às vezes, dão-se estes encontros. Entre quem precisa de contar uma história e quem precisa de ouvir. Mas a maioria das vezes, quem deveria contar as histórias não sabe. E quem as deveria ouvir não tem paciência.]

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“Você! Já me trouxe uma alma hoje?”

Posted in acasos with tags on June 10, 2009 by teresa

Um cartaz meio escondido, bem à vista de quem quiser ver. Um dedo acusador gigante, em cima de um fundo azul celeste, por baixo destas palavras em letras garrafais. Ocupa uma das paredes inteiras da entrada de uma igreja universal qualquer disfarçada de loja, ali entre a Estefânia e o Arco Cego. Desde que o vi que não consigo deixar de pensar nele. Pensar que pode haver alguém cuja missão seja alimentar de almas aquele dedo gigante.