Archive for memórias

o pai malvado

Posted in Uncategorized with tags , on November 22, 2010 by teresa

Vinha a entrar na estação de metro, quando reparei num pai e num filho muito novo a caminharem na minha direcção. Vinham ainda longe. O pai parecia que vinha a empurrar o filho ou a puxá-lo por uma orelha. Até pensei que ele tivesse feito algum disparate de criança qualquer e agora estava a ser castigado – exageradamente, na minha opinião. Vinham os dois com um ar sério, a olhar para o chão, o filho de vez em quando olhava para o pai, com certeza a queixar-se da pressão do progenitor – achava eu. À medida que me fui aproximando deles fui percebendo que aquilo que pareciam caras meio tensas eram afinal sorrisos envergonhados. O pai afinal tinha a mão no pescoço do filho e iam os dois concentrados a tentar não pisar as linhas no chão da estação. Sorri também.

Quando eu era mais nova, a minha mãe reclamava comigo sempre que eu ia à rua com ela porque cada viagem a pé era uma nova brincadeira para mim – ora não podia pisar as linhas do passeio, ora tinha que as pisar a todas, alternando os pés. Ora tinha que pisar os brancos, nas calçadas, ora só podia pousar os pés nos pretos. Ora tinha que andar por cima dos degraus das lojas todas ao longo do caminho, ora tinha que dar apenas três ou quatro passos entre cada risca do passeio. Não sei quando é que perdi esse hábito, mas assim de repente apetecia-me recuperá-lo. Só por uns momentos.

Auxiliares de Memória

Posted in acasos with tags , , , on November 13, 2009 by teresa

Depois do post sobre as memórias que guardamos, nada melhor do que um sobre os auxiliares de memória. Estava à procura de uns contactos na minha carteira, onde se vão acumulando todo o tipo de papéis, e encontrei uma factura de uma garagem, com a data de Julho de 2008, onde escrevi:

“Someday you’ll find the right person, Mari, and you’ll learn to have a lot more confidence in yourself. That’s also what I think. So don’t settle for anything less. In this world there are things you can do alone, and things you can only do with somebody else. It’s important to combine the two in just the right amount. (p. 167)”

Calculo que o livro seja este. Decidi partilhar, primeiro para mostrar que apesar de não me conseguir lembrar de todas as frases que gosto, às vezes arranjo maneira de me ir lembrando delas, segundo porque sim. ;)

Memórias

Posted in acasos with tags , on November 9, 2009 by teresa

Pormenor Muro - Agosto 2009

Tinha quatro anos na altura. Mas lembro-me da situação. É, digamos, a minha primeira “memória histórica”, se é que esse termo existe. Não sabia o que se passava, claro. Tenho só uma imagem gravada na cabeça, de estar na sala com o meu pai e os meus irmãos a ver televisão e de estarem a comentar as imagens de umas pessoas a partirem um muro. Possível? Não sei. Mas lembro-me. Lembro-me da excitação que havia no ar. Não sei dizer se era de alegria ou surpresa ou mesmo de medo por não saber o que se seguiria àquela noite, não sei dizer o que é que se comentava, não sei dizer mesmo mais nada. É só aquela imagem e o sentimento de estar a presenciar algo “importante”.

Queria lembrar-me da minha avó materna, que conheci só até aos dois anos, mas não me lembro. Queria saber porque não me lembro também de Tiananmen, que foi uns meses antes da queda do Muro de Berlim, e que foi muito mais sentido em Macau, onde vivia na altura. Queria conseguir guardar para mim todos os nomes de todos os filmes que vi e adorei, todas as frases bonitas que li, mas não consigo. Queria lembrar-me das caras dos meus amigos de infância, com quem, tenho a certeza, passei horas e horas muito mais divertidas do que aquele momento da queda do muro. Queria lembrar-me sempre de onde pouso as chaves de casa, mas já percebi que estou condenada a andar à procura delas de vez em quando. Às vezes, juro que acabo de tomar banho e nem me lembro de me ter ensaboado ou posto o champô, embora saiba que o fiz. Já cheguei a casa sem me lembrar de como lá fui parar. Já me aconteceu ter conversas que são quase instantaneamente apagadas da minha memória. E tudo isto, garanto, sóbria.

Lembro-me da queda do muro.