Archive for vida

2011

Posted in acasos with tags on January 1, 2011 by teresa

Entro neste novo ano com pouca esperança, admito. A crise que nos afecta a todos, não me deixou imune. Ou então foi a idade adulta, que foi fazendo das suas e se alojou em mim. Já não quero mudar o mundo. Apenas quero sobreviver nele sem que ele me mude a mim. Mas a tentação de deixar-me ser é grande. E agora? Agora, alguns dirão, bem-vinda ao mundo real. Eu, apesar de estar sem esperança, ainda sinto qualquer coisa e espero. Espero ser sonhadora incurável.

Vistas bem as coisas, ainda me parece a melhor opção.

Quando a realidade nos ultrapassa

Posted in acasos with tags , , on July 22, 2010 by teresa

“Então, a fábrica foi atacada.
Ouvimos o alerta de raide aéreo e corremos para o exterior. Estávamos habituados a ver aviões de combate. Eles acompanhavam sempre os bombardeiros, mas neste caso havia apenas aviões de combate. Embora nós pensássemos que o alvo era a fábrica, eram os trabalhadores que eles queriam atingir. E, enquanto nós corríamos pelo terreno irregular para a margem do rio, eles já nos tinham na mira. Desceram tão baixo que conseguíamos ver o rosto dos pilotos enquanto eles disparavam sobre nós. Algumas horas antes eu tinha estado a comer junto daqueles rapazes e daqueles homens, trabalhando e metendo-me com eles, mas agora a carne dos meus amigos voava pelos ares, arrancada pelas balas das metralhadoras. Vinte de nós escaparam para as margens do Arakawa. Sete de nós morreram. Isto teria um profundo efeito num homem adulto, mas num rapaz de doze anos, nem consigo descrever o choque que provocou. Se não se importam, preferia não falar mais deste assunto.”

O Japão é um lugar estranho, de Peter Carey, p. 98 (Ed. Tinta da China)

[Um capítulo inteiro de guerra contada na primeira pessoa. Bombardeamentos atrás de bombardeamentos. No final, a pele arrepiada e lágrimas nos olhos.]

summer days

Posted in acasos with tags , , , on July 6, 2010 by teresa

os noruegueses que trabalhem que nós não temos cura.

ser herói é ter medo e sorrir

Posted in acasos with tags on April 5, 2010 by teresa

era uma vez
um menino chamado afonso
que foi o mais bravo guerreiro
de todos os contos e histórias de encantar,
um herói tão especial
que lhe escreveram poemas épicos
daqueles que se cantam nas noites de luar;
inspirou as verdadeiras lendas
e ergueram-lhe estátuas de bronze
onde as donzelas e princesas
vinham deixar flores e outras prendas.
.
o seu nome ganhou um significado novo:
afonso passou a querer dizer
aquele que está pronto para combater
e todos, fidalgos cavaleiros ou homens do povo,
que o viram ou conheceram a sua história
testemunharam a sua coragem
e guardaram-na, como a um tesouro,
nos cantinhos luminosos da alma
e nos corredores empoeirados da memória.
.
ainda hoje, acreditem em mim,
afonso é um nome sonante
de homem sábio, forte e importante
(tivemos muitos reis a quem chamaram assim).
tudo porque um menino com olhos de mel
combateu dragões, gigantes e moinhos
e até inimigos que nunca viu,
armado apenas com esperanças e carinhos
e montado no cavalo colorido de um carrossel.
.
– – – –
.
era uma vez
um menino chamado afonso
que tinha olhos profundos e doces,
com a vida para viver
e gargalhadas para dobrar.
queria ir à escola
e jogar à bola
e brincar.
.
era uma vez um menino
que em vez de ser só um menino
escolheu, muito cedo,
ser um exemplo a seguir:
porque ser um herói,
é ter medo
e sorrir.

raquel patriarca

[o afonso é um menino de seis anos com leucemia.]

O patinho feio da estrela

Posted in acasos with tags , on March 1, 2010 by teresa

Parecia louca. Falava com o cisne como se ele fosse uma criança. “Chico! Chico! Anda cá!” Aproximei-me porque a curiosidade falou mais alto. Há loucuras que atraem. “Ele está chateado comigo. Não lhe trouxe bolachas hoje. Eles [o cisne e os patos do lago, e os pombos, e os peixes vermelhos] são uma boa companhia. Têm mais sensibilidade que nós, humanos. Também tenho patos e cisnes em casa. E pombos. Os pombos são o exemplo do amor. Só vivem para o amor. Têm filhos, cuidam deles, têm filhos. Vivem para o amor. As nossas relações às vezes são tão frias. No outro dia percebi o sentido da expressão «arrastar a asa». Filmei e tudo. Vivo num sítio com muita natureza, gosto muito. Estava num jardim, à espera do meu filho, que tinha ido a uma entrevista. O pombo, quando escolhe a parceira, arrasta a asa no chão ao pé dela. Penso que foi a asa direita. Para mostrar que está disponível para ela. Eles são fiéis, os pombos. Também tenho muitos. Sou do Norte, sabe? Quando vim para cá, chorei. Na primeira noite chorei. Você não é de cá. Não tem sotaque de lisboeta. Está aqui, neste jardim, com essa calma. Os lisboestas são frios. Vivem para o futebol e para as telenovelas. Os lisboetas vivem, mas não vivem. Não comunicam. Nem para si vivem porque não fazem o que gostam. Não páram. Só trabalham e, se for preciso, não trabalham bem. Você não é de cá. Você faz o que gosta. Cuidado, para não lhe roubarem isso! Aproveite. Até uma próxima!”. Até uma próxima.

[Às vezes, dão-se estes encontros. Entre quem precisa de contar uma história e quem precisa de ouvir. Mas a maioria das vezes, quem deveria contar as histórias não sabe. E quem as deveria ouvir não tem paciência.]

Lucky you

Posted in acasos with tags , on January 20, 2010 by teresa

A sorte é um factor decisivo em muitas fases da nossa vida. É como num jogo de ténis, quando a bola bate na rede. Naqueles milésimos de segundo, a nossa respiração pára. Tentamos adivinhar de que lado a bola vai cair. Ponto nosso ou do adversário? Durante aqueles breves instantes esquecemos todas as regras da física ou qualquer pensamento racional e apelamos à sorte. Aquela instância supostamente aleatória, mas que queremos viciar em nosso favor. Acreditamos que temos sorte porque merecemos. E, às vezes, acreditamos que ela é a única explicação racional para certos acontecimentos.

Ando a ver cadernos antigos. Este texto estava por lá.

[Foto: as sobrinhas mais novas]

(in)evitabilidades

Posted in acasos with tags , on December 8, 2009 by teresa

Os dias passam. Fazemos planos para amanhã, para quando pudermos, para quando estivermos com menos trabalho, para quando estivermos para aí virados. Hoje queremos aproveitar aquele bocadinho para estar sozinhos, ou então nem sequer parámos.

Os dias passam e os nossos amigos que vivem a cinco, seis estações de metro de nós é como se vivessem noutro país, tão difícil que é conjugar todos os imprevistos que amaldiçoam a nossa vida e a deles. Esta semana não deu para ver a família, afinal já passou um mês. Ontem não consegui ligar-te e dizer-te “olá, como estás?”. Queria tanto dizer-te “olá, como estás?” mas não consegui porque não tive tempo, porque quando me lembrei não dava jeito e quando dava jeito não me lembrei.

Os dias passam e a nossa agenda imaginária vai-se enchendo de coisas para fazer a um ritmo tal que todos os dias daria para acrescentar tantas páginas novas. E os dias que passaram que se vão tornando cada vez mais iguais.

Os dias passam e quando voltamos a ouvir falar desses amigos de repente eles já têm filhos, já casaram, já se mudaram de cidade três vezes antes de voltarem para cá. E o número, que continuou sempre o mesmo.

Os dias passam e nós apesar de tudo somos cada vez mais mestres do tempo, contabilizando horas extraordinárias, tempos que perdemos nos transportes públicos, dias de férias, horas ganhas com as novas tecnologias ou perdidas por causa delas, prazos expirados, conversas fora do seu tempo, minutos desperdiçados nas filas da vida.

Os dias passam e nós vamos passando por eles, à espera que algo aconteça. Talvez amanhã seja o dia. Talvez amanhã te diga o que sinto por ti. Talvez amanhã te ligue e vamos beber o tal café. Talvez amanhã me inscreva naquele curso. Talvez amanhã me lembre de marcar a consulta. Amanhã vamos falar e resolver o que temos para resolver. Não quero que fique nada pendente.

Mas hoje é impossível.