Archive for the acasos Category

Cá em baixo

Posted in acasos with tags on June 9, 2015 by teresa

“Os pássaros voavam no céu, como se voassem num mundo mais justo. Corriam nesse mundo só de claridade, nesse céu. Voavam felizes. As nuvens ainda mais acima, mais longe de tudo, mais perfeitas, eram pequenas manchas brancas a mostrar que a lonjura do céu é tão infinita. Cá em baixo, a terra, este mundo e dezenas de pessoas talvez preocupadas, a mexerem-se sen saírem do lugar. Passava uma aragem pelos campos, pelas pedras, pelas moitas, pelas ervas miúdas, deslizava pela superfície da barragem. Lá muito ao fundo, o sol quase tocava o cabeço do outro lado da barragem. A luz estendia-se pelas águas, pela terra, e batia naquela multidão inquieta, e estendia-lhes as sombras sobre a terra. Estendia-lhes o desassossego.”

[Cal, José Luís Peixoto]

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Ir para dentro, lá fora

Posted in acasos with tags , on September 17, 2014 by teresa

“Sigismundo Canastro vem de cumprir a sua obrigação, é só isso e nada mais. E como, apesar da gravidade dos passos a dar, tem seu tanto de malicioso e alegre, consoante neste relato já ficou demonstrado por mais de uma vez, foi passar à porta do posto da guarda e, vendo-a fechada e as luzes apagadas, chegou-se ao muro e mijou a seu prazer e regalo como se mijasse em cima de toda a corporação. São criancices de homem velho, já não lhe vai servindo a picha para muito mais, mas para isto ainda, este belo regueiro que procura caminho entre as pedras, quem me dera ter litros de urina para ficar aqui a mijar a noite inteira (…)”.

[Levantado do Chão, José Saramago]

Há escritores que são como lugares e que nos fazem sentir em casa onde quer que estejamos. Escreverem em português é essencial para mim. Posso gostar muito de outros escritores, mas nunca conseguirei dizer home e sentir a mesma familiaridade que encontro em lar. Algum humor e ironia também são necessários. Duvido que seja possível contar a natureza humana sem estes ingredientes. Saramago, até agora, nunca desiludiu.

Círculo perfeito

Posted in acasos with tags on October 5, 2013 by teresa

“E, no entanto, esse medo e a sua exacta enunciação – “apodrecer por dentro” – não só tinham tomado conta da cabeça do meu amigo, como o psiquiatra sabia que isso ia acontecer. Sabia-o não por ser um mágico capaz de adivinhar os pensamentos do meu amigo, sabia-o porque isso estava escrito nos compêndios de medicina. E quem o tinha escrito não tinha sido nenhum vidente. Nem um profeta. Muito menos Deus. Quem o tinha escrito tinha sido uma pessoa que se limitara a estar atenta a pessoas que adoeciam com a doença de que o meu amigo adoecera, uma pessoa que tinha testemunhado e registado este facto que agora me aterrava: se adoecermos com a doença com que o meu amigo adoecera passamos todos a pensar de maneira semelhante.

– Eu?

Isto significa que nos tornamos indistintos ou será que somos indistintos?”

[Em Busca D’eus Desconhecidos, Dulce Maria Cardoso]

A hora estranha

Posted in acasos with tags on January 22, 2012 by teresa

“Elizabeth teve um ligeiro calafrio e ele voltou-se para ela. “Tens frio, querida? Vou buscar a manta dos cavalos, para te tapar os joelhos.” Ela tremeu outra vez, já não tão bem como da primeira, porque estava a fazer de propósito.

“Não tenho frio”, disse ela, “mas a hora é tão estranha. Gostava que falasses comigo. É uma hora perigosa.”

Ele pensou no bode. “Que queres dizer? Perigosa?” Agarrou-lhe nas mãos e pousou-as sobre os joelhos.

“Quero dizer que há o perigo de nos perdermos. É a luz a sumir-se. Pareceu-me de repente sentir que me espalhava e desvanecia como uma nuvem, misturando-me com tudo o que me rodeia. Sentia-me bem, Joseph. Depois passou o mocho; e tive medo de me misturar demasiadamente com os montes e nunca mais poder voltar a encontrar-me na pessoa de Elizabeth.

“É só a hora”, tranquilizou-a ele.”

[A Um Deus Desconhecido, John Steinbeck]

uma valsa

Posted in acasos on January 13, 2012 by teresa

Escondia “a palavra” no bolso, como quem guardava o melhor segredo de todos os tempos. Não deixava ninguém espreitar e houve dias em que esta missão foi muito complicada. Os rumores correm tão depressa que três dias depois de ter metido “a palavra” no bolso, já não podia andar distraída na rua sem que alguém tentasse ir-lhe ao bolso. Era absurdo, insistia, afinal, “é só uma palavra”. “Então mostra-a”, exigiam, como se todos tivessem o direito de saber o que ela não queria dizer a ninguém.

Agora tudo era mais fácil. O mundo dividira-se em duas legiões, com espiões dos dois lados: os que defendiam o segredo, porque achavam que ela tinha o direito a ele, e os que tentavam descobrir “a palavra”, gastando para isso todas as suas forças, meios e imaginação. A palavra continuava escondida dentro do bolso. O bolso tinha sido guardado dentro de um cofre colocado no meio de um campo minado. O campo ficava numa gruta a 2 643 quilómetros de profundidade.

Ditadores in love

Posted in acasos with tags on November 29, 2011 by teresa

«Fora da política, tenho de ser guiado em tudo e por tudo. Tenho necessidade de uma mulher que me diga “agora come, cobre-te, bebe isso, vai fazer chichi”. Porque senão, eu retenho o chichi durante duas ou três horas e esqueço-me de ir fazer.»
Benito Mussolini

[Mulheres de Ditadores, Diane Ducret]

As cinzas às cinzas

Posted in acasos with tags on August 28, 2011 by teresa

“Quando tornou a acordar, pareceu-lhe que a chuva cessara. Mas não fora isso que o acordara. Fora visitado num sonho por criaturas de um género que nunca vira antes. Não falavam. Imaginou-as agachadas junto do catre, a escapulirem-se mal ele acordara. Virou-se e olhou para o rapaz. Talvez se apercebesse, pela primeira vez, de que era um extraterrestre aos olhos do filho. Um ser vindo de um planeta que já não existia, que contava histórias de veracidade bastante duvidosa. Queria recriar o mundo que perdera para desfrute do rapaz, mas isso implicava necessariamente recriar a perda, e achava que talvez o filho percebesse isto melhor do que ele próprio. Tentou recordar o sonho, mas não foi capaz. Restava apenas a atmosfera. Pensou que talvez as tais criaturas tivessem vindo para o avisar. De quê? De que não podia inflamar no coração da criança aquilo que não passava de cinzas no seu. Mesmo agora, uma parte de si desejava nunca terem encontrado aquele refúgio. Uma parte de si desejava sempre que tudo acabasse.”

[A Estrada, Cormac McCarthy]