Tias (muito) modernas

“Continuo preocupada com as mangas”, disse a tia Charlie. “Será que devia encurtá-las seis milímetros?”

Depois do café, voltou à sala com essa intenção, alinhavando apenas uma das mangas para ver como ficaria. Chamou-me para voltar a provar o vestido, e quando eu o vesti verifiquei, surpreendida, que ela tinha o olhar fixo no meu rosto, em vez de na manga. Tinha algo fechado na mão, que me queria dar. Eu estendi a mão e ela sussurrou, “Toma.”

Quatro notas de cinqueta dólares.

“Se mudares de ideias”, disse ela, ainda num sussurro trémulo e apressado. “Se decidires que não queres casar, vais precisar de algum dinheiro para fugir.”

Quando disse se mudares de ideias, eu pensei que ela estava a brincar, mas quando chegou ao vais precisar de algum dinheiro percebi que falava a sério. Fiquei paralisada no meu vestido de veludo, sentindo uma dor nas têmporas, como se tivesse a boca cheia de algo demasiado frio ou demasiado doce.

[A Vista de Castle Rock, Alice Munro]

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