
…foram a um sítio e voltaram com a sensação de que não chegaram a estar lá?

…foram a um sítio e voltaram com a sensação de que não chegaram a estar lá?
Depois do post sobre as memórias que guardamos, nada melhor do que um sobre os auxiliares de memória. Estava à procura de uns contactos na minha carteira, onde se vão acumulando todo o tipo de papéis, e encontrei uma factura de uma garagem, com a data de Julho de 2008, onde escrevi:
“Someday you’ll find the right person, Mari, and you’ll learn to have a lot more confidence in yourself. That’s also what I think. So don’t settle for anything less. In this world there are things you can do alone, and things you can only do with somebody else. It’s important to combine the two in just the right amount. (p. 167)”
Calculo que o livro seja este. Decidi partilhar, primeiro para mostrar que apesar de não me conseguir lembrar de todas as frases que gosto, às vezes arranjo maneira de me ir lembrando delas, segundo porque sim. ;)

Tinha quatro anos na altura. Mas lembro-me da situação. É, digamos, a minha primeira “memória histórica”, se é que esse termo existe. Não sabia o que se passava, claro. Tenho só uma imagem gravada na cabeça, de estar na sala com o meu pai e os meus irmãos a ver televisão e de estarem a comentar as imagens de umas pessoas a partirem um muro. Possível? Não sei. Mas lembro-me. Lembro-me da excitação que havia no ar. Não sei dizer se era de alegria ou surpresa ou mesmo de medo por não saber o que se seguiria àquela noite, não sei dizer o que é que se comentava, não sei dizer mesmo mais nada. É só aquela imagem e o sentimento de estar a presenciar algo “importante”.
Queria lembrar-me da minha avó materna, que conheci só até aos dois anos, mas não me lembro. Queria saber porque não me lembro também de Tiananmen, que foi uns meses antes da queda do Muro de Berlim, e que foi muito mais sentido em Macau, onde vivia na altura. Queria conseguir guardar para mim todos os nomes de todos os filmes que vi e adorei, todas as frases bonitas que li, mas não consigo. Queria lembrar-me das caras dos meus amigos de infância, com quem, tenho a certeza, passei horas e horas muito mais divertidas do que aquele momento da queda do muro. Queria lembrar-me sempre de onde pouso as chaves de casa, mas já percebi que estou condenada a andar à procura delas de vez em quando. Às vezes, juro que acabo de tomar banho e nem me lembro de me ter ensaboado ou posto o champô, embora saiba que o fiz. Já cheguei a casa sem me lembrar de como lá fui parar. Já me aconteceu ter conversas que são quase instantaneamente apagadas da minha memória. E tudo isto, garanto, sóbria.
Lembro-me da queda do muro.

Gerir emoções. Odiar alguém tão próximo. Como se chega a este ponto? Como é que alguém, ao fim de tanto tempo a confrontar-se com o mesmo erro, não aprende? Seremos todos assim? Seremos todos aquilo que sempre fomos e pouco mais para além disso?
O que é que nos definiu? A nossa natureza? A nossa educação? As nossas experiências? Haverá sempre uma explicação por trás de cada atitude nossa, haverá sempre uma desculpa?
Se assim for, não somos ninguém. Somos apenas máquinas que respondem a certos estímulos, tendo em conta outros que constituem o nosso passado ou o nosso “acumular de estímulos”. Somos criaturas previsíveis, cujas atitudes têm sempre uma explicação, nem sempre visível à primeira vista. Somos todos iguais, com percursos diferentes porque aquilo que rodeia cada um de nós é diferente.
- Tu não sabes aquilo porque eu passei – dizemos, quando alguém não nos compreende. Como se isso bastasse para compreender aquilo que somos, que fazemos, aquilo que mexe connosco.
Tanta coisa por um individualismo que pode ser analisado minuciosamente e reduzido a um conjunto de situações por que este nosso organismo passou. Ele é agressivo porque os pais foram com ele. Os pais são agressivos porque os pais deles também o foram. E assim por diante.
No fundo, acabamos por ser seres estúpidos, abandonados nas mãos de um qualquer acaso que define aquilo que somos.

Gosto da expressão. Tanto quanto sei, a palavra espuma simboliza a fragilidade da existência humana. E aqui cabe tanto o que há de mais belo como de mais ruim em nós. A superficialidade. A beleza. A simplicidade. A espuma dos dias são os dias que passam por nós quase sem nos darmos conta do tempo a passar. E são os pequenos pormenores que fazem toda a diferença no nosso dia-a-dia.

às vezes não podemos fazer muito mais do que dizer “estou aqui”.

Um passeio de gôndola numa piscina dentro de um centro comercial gigante que pertence ao maior casino do mundo, onde se pretende recriar o ambiente da cidade italiana de veneza. não é o convite mais apelativo, ainda por cima ao fim de um dia inteiro de trabalho. mas é obrigatório entrar naquele casino para conhecer macau.
nos últimos anos, o número de casinos cresceu exponencialmente, com o fim do monopólio do jogo. o número de casinos na cidade varia tanto que as próprias autoridades não sabem muito bem quantos são. há sempre um novo e muitos mais a serem imaginados, projectados, construídos. as maiores cadeias do mundo estão lá, renovaram os antigos hotéis ou simplesmente construíram novos. em cada esquina há um casino, tal como uma casa de penhores, não vá o dinheiro faltar no momento de sorte.
o condutor da gôndola diz-me que é “filipino italiano”. nasceu em itália. ah.. e fala italiano? sim, e até canta em italiano. o passeio demora 15 minutos, mas se eu estiver com pressa pode demorar menos. estou. a gôndola anda então um pouco mais rápido naquele percurso minúsculo que a separa da praça de são marcos fictícia. ao longo do caminho, o céu é sempre de um azul clarinho, com uma ou outra nuvemzinha. nada de especial, claro, na terra do jogo o céu é sempre quase limpo. chegados à praça, o filipino italiano anuncia que vai cantar una canzone de amor da terra dele – a itália, claro – chamada “volare”. e estica os braços para me explicar o significado da palavra. e começa a cantar, bem alto. nas ruas do centro comercial as pessoas param e olham para esta estranha encenação. parecem gostar. e eu admito que tem a sua beleza. vale tudo para se ser excêntrico. mesmo que esta “piscina” tenha apenas 3 metros de largura e a percorremos a pé em 5 minutos.
então, viveu em itália?, pergunto. sim. quanto tempo? quando era pequeno. fala italiano? sim. mas quanto tempo lá viveu? ah, já foi há muito tempo. mas gostava daquilo? tinha três anos quando saí de lá, não me lembro de nada.
é isto macau. um misto de gentes, culturas, línguas vindas de todo o lado do mundo. é também a cidade dos casinos. das ilusões. e um dia foi uma terra portuguesa. percebe-se pelas placas com o nome das ruas, pelas lojas com nome português, mesmo que em português aquelas palavras não tenham significado nenhum. percebe-se pela baixa com a calçada portuguesa e pelas fachadas de alguns edifícios aqui e ali. percebem, os olhares mais atentos, que há uns restaurantes de comida macense, com traços de comida portuguesa, indiana, malaia, chinesa e de todo o mundo.
macau é a mais improvável mistura das culturas ocidental e oriental que podia acontecer, mas, lá está, e promete continuar a crescer nos próximos tempos.


Passámos a ter “caixa de correio”.