
Os dias passam. Fazemos planos para amanhã, para quando pudermos, para quando estivermos com menos trabalho, para quando estivermos para aí virados. Hoje queremos aproveitar aquele bocadinho para estar sozinhos, ou então nem sequer parámos.
Os dias passam e os nossos amigos que vivem a cinco, seis estações de metro de nós é como se vivessem noutro país, tão difícil que é conjugar todos os imprevistos que amaldiçoam a nossa vida e a deles. Esta semana não deu para ver a família, afinal já passou um mês. Ontem não consegui ligar-te e dizer-te “olá, como estás?”. Queria tanto dizer-te “olá, como estás?” mas não consegui porque não tive tempo, porque quando me lembrei não dava jeito e quando dava jeito não me lembrei.
Os dias passam e a nossa agenda imaginária vai-se enchendo de coisas para fazer a um ritmo tal que todos os dias daria para acrescentar tantas páginas novas. E os dias que passaram que se vão tornando cada vez mais iguais.
Os dias passam e quando voltamos a ouvir falar desses amigos de repente eles já têm filhos, já casaram, já se mudaram de cidade três vezes antes de voltarem para cá. E o número, que continuou sempre o mesmo.
Os dias passam e nós apesar de tudo somos cada vez mais mestres do tempo, contabilizando horas extraordinárias, tempos que perdemos nos transportes públicos, dias de férias, horas ganhas com as novas tecnologias ou perdidas por causa delas, prazos expirados, conversas fora do seu tempo, minutos desperdiçados nas filas da vida.
Os dias passam e nós vamos passando por eles, à espera que algo aconteça. Talvez amanhã seja o dia. Talvez amanhã te diga o que sinto por ti. Talvez amanhã te ligue e vamos beber o tal café. Talvez amanhã me inscreva naquele curso. Talvez amanhã me lembre de marcar a consulta. Amanhã vamos falar e resolver o que temos para resolver. Não quero que fique nada pendente.
Mas hoje é impossível.